Economia da Informação

Carlota Pérez: a economista que tem a solução para a crise

Posted in Sem categoria by Flávio Clésio on 18 de janeiro de 2010

Extraído de IONLINE.

Em uma entrevista ao site IOnline, Carlota Perez fala um pouco de crise econômica, e faz algumas recomendações para a saída da crise.

“Temos à frente uma época de prosperidade, mas não será fácil chegar lá. É preciso mudar a lógica do lucro a curto-prazo e criar um regulador mundial”

Carlota Pérez esteve em Lisboa a convite da APDC e falou ao i sobre uma crise que antecipou no seu livro de 2002. Pérez caracteriza os tempos actuais como uma das grandes mudanças tecnológicas que se vivem a cada 50 anos. A prosperidade está já ao virar da esquina, garante, mas é preciso não fechar os olhos ou tapar com areia os problemas que nos guiaram até à crise actual.

O que esperar depois da crise?

Se a história serve de indicador, depois de crises que surgem a meio de uma grande revolução tecnológica, vem uma época dourada. O boom Victoriano, a Belle Époque e o auge do pós-guerra foram períodos de prosperidade. Mas isto não é mecânico. Exige decisões que modifiquem as condições do mercado, que favoreçam a economia real e não o casino financeiro e distribuam melhor a riqueza, estimulem a procura e a expansão da produção e emprego. O capitalismo já viveu quatro ciclos pendulares como este.

Esta crise é diferente de outras?

Comparar-se esta crise à de 1929 não é coincidência. Esta é da mesma natureza que a do crash ou do pânico dos investimentos em massa nos caminhos-de-ferro no séc. XIX. É uma crise inerente ao modo como o sistema assimila as grandes mudanças tecnológicas, daquelas que só ocorre uma vez a cada meio século. Vivemos uma crise dupla. Nenhuma das inovações financeiras que nos guiaram à crise actual, como os CDO [conversão de hipotecas em acções], nem a sua comercialização global, podiam fazer-se sem informática. Esta crise marca o fim da necessidade de termos as finanças a controlar a economia. Hoje é preciso que o Estado volte a ser activo.

Esta crise é uma adaptação às novas tecnologias?

Quando uma revolução tecnológica se esgota, também a sua lógica se esgota. O Estado tem agora de se adequar às necessidades do paradigma informático para que renda benefícios para a sociedade. Se as crises são inevitáveis? Diria que, por agora, o modo como se tem desenvolvido o sistema do mercado requer uma ruptura grande que apenas o capital financeiro, com a sua mobilidade, consegue fazer. É pegar no dinheiro e transferi-lo para os empreendedores, convertê-los em grandes empresas, como a Google ou Microsoft. O capital tem agora que voltar a apoiar a produção.

Depois da crise, qual será o papel do Estado?

É como ter um doente em estado crítico. A prioridade é salvá-lo. Depois de salvo, a preocupação passa por evitar que ocorra o mesmo. Há muitas formas de fazer isso. Primeiro, mudar as regras de funcionamento do sistema financeiro, dar-lhe mais transparência. O casino financeiro operava num registo de total opacidade. Madoff é só a ponta de um iceberg de comportamentos duvidosos na sombra. Segundo, uma regulação global. Não se pode controlar internamente um sistema que funciona sem fronteiras. É também preciso que o sistema financeiro se volte para a economia real, apoiando a criação de riqueza na produção. Para isso é preciso mudar os incentivos e até a fiscalidade. Os prémios e incentivos ainda passam pela tomada de risco. Esse foi o caminho do colapso. Criar emprego, investir em formação, exige esforço e não faz milionários em pouco tempo.

Mudar as mentalidades…

Não. Tem que se forçar a mudança. Se criar um imposto alto para quem vende uma casa, acções ou instrumentos financeiros logo depois de os comprar, e impostos decrescentes para quem só vende passados cinco anos, então há um desincentivo ao curto-prazo. Igual se der um benefício fiscal ao investimento criador de emprego. Estes impostos mudam o perfil do mercado.

Esta mudança é fulcral para se chegar à nova época dourada?

Muito. A questão ambiental é outro grande espaço tecnológico possível e que tem que ser criado. Ele existe, mas o mercado não é suficientemente grande para ser incentivador. A globalização tem que ver com a possibilidade de ampliar mercados e a produção, e isto virá reduzir os problemas de terrorismo, da imigração, aproximando os continentes que ficaram atrás: África e América Latina.

Mas as tecnológicas já investiram nessas geografias

O investimento é bom, mas não pode ser feito à custa de desemprego na Europa. A solução passa pela especialização regional. Para os países desenvolvidos há várias áreas: entretenimento, educação, indústrias criativas, ambientais, biotecnologia, nanotecnologia, etc, o que supõe investimentos em massa e emprego por muitos anos. Já a produção, que requer muita mão-de-obra, pode ser oportunidade nos países densamente povoados como os asiátios, enquanto a indústria de processamento de materiais, química ou agro-industrial poderia sediar-se na América Latina e África que têm muitos recursos naturais. A globalização plena da produção pode elevar o nível de vida do terceiro mundo como o Welfare State fez com o primeiro mundo.

É dar prioridade à procura de mais equilíbrio…

O capitalismo está sempre a evoluir. É inegável que estamos melhor do que há 100 anos, embora ainda haja pessoas a morrer de fome. O sistema funciona assim, avança, retrocede e volta a avançar. As tecnologias estão aí e depende das sociedades até onde chegarão e como serão usadas, havendo sempre o risco de não aproveitarmos todo o seu potencial porque muitos mecanismos do capitalismo são motivados por ambição pessoal.

Esta crise terminará a curto ou longo-prazo? Uns falam que será em V, outros em W?

Dizem que vai ser um V, ou um W, porque consideram que é uma crise comum que se ataca com políticas típicas. Se apenas estivermos dedicados a curar o sistema financeiro não vamos ter um W, mas sim sete dromedários seguidos. Subida, queda, subida, queda e cada vez pior, até que se perceba que as mudanças necessárias não são só financeiras. São muito mais abrangentes: um Bretton Woods mais o Welfare State. Não podemos ter uma economia próspera sem que as decisões de investimento passem para o capital produtivo. Uma empresa que hoje queira investir a três ou quatro anos não consegue. Porquê? Porque a bolsa exige-lhe que a cada três meses tenha mais lucros.

O curto-prazo é autodestrutivo?

O carácter de curto-prazo do capital financeiro prejudica economia. É preciso pensar a longo-prazo em projectos, infra-estruturas, mudanças relacionadas com ambiente e sociedade, e que não serão feitas pelas finanças onde tudo é lucro fácil.

E o mundo financeiro vai deixar que ocorra tal mudança?

Pois? As grandes economias precisam desta mudança, estão amarradas ao sistema financeiro que precisam de controlar. Não sei se será possível mudar isto, daí não estimar quanto tempo vai durar esta crise. Um crescimento harmónico da economia, positivo e não polarizante, não se atingirá a menos que capital financeiro deixe de controlar tudo. Controla a economia, o mundo político…

Para chegar ao novo estado dourado, que vaticina, será preciso mudar tudo isto?

Sim, de forma a aproveitar o potencial de crescimento que hoje existe e que é imenso. O potencial de lucros é enorme, cabe a esta geração aproveitá-lo.

Em Portugal discutem-se os investimentos em grandes infra-estruturas. Há quem os defenda e quem defenda investimentos divididos por vários pequenos projectos. Qual a prioridade?

Se realmente só há uma dada quantia de dinheiro, a decisão não é fácil. A razão para investir em grandes infra-estruturas é criar emprego para aqueles que perderam emprego com a crise. E isso não acontecerá com pequenos projectos. Não se esqueça que estamos no tempo da terapia intensiva, em que a prioridade é salvar o doente.

Dar prioridade ao desemprego?

Claro, o desemprego não é um conceito abstracto. Mas atenção que para preparar o médio-prazo também são precisos os outros projectos, pequenos e grandes de inovação, de pequenas e médias empresas. Muito disso pode ser feito pelos privados, não tem de ser o Estado.

O que nos espera na Época Dourada? Grande crescimento ou crescimento curto mas sustentado?

Não podemos dizer o que vamos esperar, porque temos que construi-lo. Há muitos obstáculos a ultrapassar, como o poder do sistema financeiro e o nacionalismo. É muito importante que existam políticas nacionais mas não nacionalismos. Não ceder um pouco de quota do poder às estruturas supranacionais é um obstáculo, há que aceitar a supranacionalidade.

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